LUIZ FELIPE FUSTAINO
O FINO DA MOSTRA

Sempre que está em boas mãos, Gael não decepciona. Prova disso é que, embora não tenha uma carreira com tantos filmes assim, todos conhecem Gael, "o cara da Mostra" desse ano. Mas depois de trabalhar com alguns nomes importantes do cenário latino – Pedro Almodóvar (Má Educação), Alejandro González Iñarritu (Amores Perros e Babel), Alfonso Cuarón (E Sua Mãe Também...) e Walter Salles (Diários de Motocicleta) – Gael García Bernal resolveu se aventurar por trás das câmeras. Um fiasco.
A culpa não é da trama, idealizada por ele e outros colegas mexicanos – na estréia de Déficit aqui na Mostra, Gael disse que a idéia do filme surgiu de um “chiste”, uma piada.
Aproveitando-se da ausência dos pais, que estão em outro país devido a acusações de corrupção, Cristóbal (Gael García Bernal) e sua irmã Elisa (Camila Sodi) convidam seus amigos para uma festa na mansão de veraneio da família. Cristobal se encanta por uma jovem argentina, Dolores (Luz Cipriota), e sempre que sua namorada, Mafer (Ana Serradilla), o chama ao celular pedindo ajuda para encontrar o local da festa, ele passa as coordenadas erradas para evitar que ela chegue a tempo.
Além desse micro-conflito amoroso de Cristóbal, vários outros ilustram reflexões sobre a juventude contemporânea: o protagonista não consegue ser aprovado para um MBA em Harvard, não se conforma com o problema na descarga do banheiro, incomoda-se com a proximidade entre Dolores e Adán, o filho do jardineiro da casa.
Todos esses "transtornos pequeno-burgueses" de Cristóbal serão utilizados de maneira crítica em Déficit, que tenta, sempre que pode, deixar clara qual é a luta de classes dos novos tempos. O filme tem dois núcleos: os convidados da festa e os empregados da mansão. Enredo típico de filme politicamente corretíssimo, mas que acerta ao evitar a separação entre heróis e vilões.
Porém, se a intenção do filme é causar algum incômodo – reação claramente obtida no polêmico Tropa de Elite –, o objetivo vai por água abaixo. E o motivo é simples: o filme não tem diretor. Assim como o personagem de Gael tenta desorientar a namorada, que nunca consegue encontrar a mansão, tanto as atuações quanto o próprio roteiro sentem falta de alguém para guiá-los.
Déficit não é um filme cansativo, nem monótono, mas quando acaba, fica a sensação de que está faltando alguma coisa. Essa coisa tem nome: diretor.
DÉFICIT
(Déficit, México)
Direção: Gael García Bernal
Competição | 2007 | 79 min
19/10 | 21:00 Cine Bombril 1
20/10 | 19:30 FAAP
22/10 | 15:10 Cinesesc
26/10 | 15:10 Cinemateca – sala BNDES
Mais Gael. Além de O Passado e Déficit, dois filmes comentados em O Fino da Mostra, Gael García Bernal também protagonizou o filme Sonhando Acordado, de Michel Gondry (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), exibido no primeiro fim-de-semana da Mostra – talvez passe novamente na repescagem.
Além de ator e diretor, Gael aproveita sua superexposição na Mostra para trazer também seu lado produtor. Ele produziu Cochochi, a história de dois meninos indígenas do noroeste do México que se perdem ao comprar remédios a um parente – o filme é falado na língua da tribo local.
COCHOCHI. Direção: Israel Cárdenas e Laura Amelia Guzmán25/10 | 18:50 – Unibanco Arteplex 1
28/10 | 16:30 – HSBC Belas Artes 2









Jean-Luc Godard não assume a paternidade de Sympathy for the Devil, cuja montagem foi feita pelos produtores à sua revelia. Por isso, fez One + One, em que não teve vergonha de dizer que é o pai. Ambos são filmes-manifesto feitos em 1968, misturando imagens da gravação da canção dos Rolling Stones com esquetes de teor político, em que se discute o comunismo, o movimento negro, o maoísmo e a necessidade de por fim à intelectualidade.







Pelo menos três filmes que serão exibidos na Mostra já podem ser encontrados no mercado pirata. O Fino da Mostra encontrou os filmes abaixo em mais de uma das bancas do